sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Obra de Pires Cabral vale prémio Camilo
‘O Porco de Erimanto’ valeu, este ano, ao escritor António Manuel Pires Cabral o ‘Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco’.
Pires Cabral é o 20.º escritor premiado com este galardão, instituído através de uma colaboração entre a Associação Portuguesa de Escritores e a Câmara Municipal de Famalicão.
O prémio tem um valor monetário de 7.500 euros e já reconheceu escritores como Mário de Carvalho, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Luísa Costa Gomes, José Eduardo Agualusa, António Mega Ferreira entre outros.
A obra vencedora - ‘O Porco de Erimanto’ - é uma colectânea de contos publicada pela ‘Cotovia’ e mereceu o voto do júri - constituído por Afonso Cruz, José António Gomes e Serafina Martins, com a coordenação de Fernando Miguel Bernardes - que enalteceu a “diversid ade dos registos linguísticos” e o “trabalho de apuro estilístico do texto”.
“A exploração do absurdo e o sentido de humor constituem dois outros traços marcantes de uma colectânea que se distingue pela sua unidade e equilíbrio internos e pela cultura literária evidenciada pelo autor”, referiu o júri.
Satisfação pelo reconhecimento
António Manuel Pires de Cabral nasceu em 1941 em Chacim (Macedo de Cavaleiros). Licenciado em Filologia Germânica, venceu o Prémio Círculo de Leitores de 1983 com o romance ‘Sancirilo’.
Feliz com a atribuição do prémio, o autor disse, na altura, ter acolhido a notícia com “dois estados de alma: primeiro satisfação absoluta, por se ver reconhecido ou ver uma parte do trabalho reconhecida, e, por outro lado, um estímulo para continuar”.
“Todo e qualquer prémio representa sempre um reconhecimento de uma obra e por conseguinte é sempre muito grato receber prémios. Por outro lado, há aquele outro aspecto que é o prémio criar-nos responsabilidades e portanto estimular-nos a continuar a escrever e fazer cada vez melhor”, sublinhou o autor.
Pires Cabral trabalha já noutra obra - ‘Cobra de água’ - que deverá sair em Julho de 2012.
Pires Cabral é o 20.º escritor premiado com este galardão, instituído através de uma colaboração entre a Associação Portuguesa de Escritores e a Câmara Municipal de Famalicão.
O prémio tem um valor monetário de 7.500 euros e já reconheceu escritores como Mário de Carvalho, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Luísa Costa Gomes, José Eduardo Agualusa, António Mega Ferreira entre outros.
A obra vencedora - ‘O Porco de Erimanto’ - é uma colectânea de contos publicada pela ‘Cotovia’ e mereceu o voto do júri - constituído por Afonso Cruz, José António Gomes e Serafina Martins, com a coordenação de Fernando Miguel Bernardes - que enalteceu a “diversid ade dos registos linguísticos” e o “trabalho de apuro estilístico do texto”.
“A exploração do absurdo e o sentido de humor constituem dois outros traços marcantes de uma colectânea que se distingue pela sua unidade e equilíbrio internos e pela cultura literária evidenciada pelo autor”, referiu o júri.
Satisfação pelo reconhecimento
António Manuel Pires de Cabral nasceu em 1941 em Chacim (Macedo de Cavaleiros). Licenciado em Filologia Germânica, venceu o Prémio Círculo de Leitores de 1983 com o romance ‘Sancirilo’.
Feliz com a atribuição do prémio, o autor disse, na altura, ter acolhido a notícia com “dois estados de alma: primeiro satisfação absoluta, por se ver reconhecido ou ver uma parte do trabalho reconhecida, e, por outro lado, um estímulo para continuar”.
“Todo e qualquer prémio representa sempre um reconhecimento de uma obra e por conseguinte é sempre muito grato receber prémios. Por outro lado, há aquele outro aspecto que é o prémio criar-nos responsabilidades e portanto estimular-nos a continuar a escrever e fazer cada vez melhor”, sublinhou o autor.
Pires Cabral trabalha já noutra obra - ‘Cobra de água’ - que deverá sair em Julho de 2012.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Saramago abre dois meses de cultura espanhola
Música em espanhol, palavras de um português. Será assim o arranque da segunda edição da Mostra Espanha, hoje, às 21.30, no cinema S. Jorge, com o concerto do cantor estremenho Luis Pastor, acompanhado da Orquestra Metropolitana de Lisboa.
O cantautor Luis Pastor nterpreta textos de José Saramago que resultaram no disco En Esta Esquina del Tiempo . "A selecção e a música são do Luis, Saramago participou aplaudindo", explica Pilar del Río, mulher do escritor, sublinhando que é "um grande seguidor da cultura portuguesa, cantava e tocava Zeca Afonso num bar em Madrid chamado Libertad".
Hoje ainda, inauguram-se duas exposições: Cuerpos de Dolor - A Imagem do Sagrado na Escultura Espanhol a (ver página ao lado) e Rostros de Roma, um percurso do retrato romano através da escultura do Museu Arqueológico Nacional de Espanha. Pode ser vista até 15 de Dezembro no Mosteiro dos Jerónimos.
In Diário de Notícias
O cantautor Luis Pastor nterpreta textos de José Saramago que resultaram no disco En Esta Esquina del Tiempo . "A selecção e a música são do Luis, Saramago participou aplaudindo", explica Pilar del Río, mulher do escritor, sublinhando que é "um grande seguidor da cultura portuguesa, cantava e tocava Zeca Afonso num bar em Madrid chamado Libertad".
Hoje ainda, inauguram-se duas exposições: Cuerpos de Dolor - A Imagem do Sagrado na Escultura Espanhol a (ver página ao lado) e Rostros de Roma, um percurso do retrato romano através da escultura do Museu Arqueológico Nacional de Espanha. Pode ser vista até 15 de Dezembro no Mosteiro dos Jerónimos.
In Diário de Notícias
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Amazon lança biblioteca digital
Estão inclusos mais de 100 best-sellers atuais e antigos do New York Times
A Amazon.com lançou um serviço de biblioteca digital para donos do Kindle que também forem membros do programa Amazon Prime.
Os assinantes terão a possibilidade de escolher entre vários títulos. Estão inclusos mais de 100 best-sellers atuais e antigos do New York Times, com direito a um deles por mês, segundo a companhia.
O Amazon Prime custa 79 dólares por ano nos Estados Unidos. Ele dá o direito de envio gratuito de itens em dois dias e também acesso livre a cerca de 13 mil programas de TV e filmes.
in http://www.administradores.com.br/informe-se/tecnologia/amazon-lanca-biblioteca-digital/49475/
A Amazon.com lançou um serviço de biblioteca digital para donos do Kindle que também forem membros do programa Amazon Prime.
Os assinantes terão a possibilidade de escolher entre vários títulos. Estão inclusos mais de 100 best-sellers atuais e antigos do New York Times, com direito a um deles por mês, segundo a companhia.
O Amazon Prime custa 79 dólares por ano nos Estados Unidos. Ele dá o direito de envio gratuito de itens em dois dias e também acesso livre a cerca de 13 mil programas de TV e filmes.
in http://www.administradores.com.br/informe-se/tecnologia/amazon-lanca-biblioteca-digital/49475/
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
A nova livraria e café de viagens de Lisboa dá a palavra ao viajante
São Bento de portas abertas aos viajantes e numa antiga loja de guarda-chuvas, para maior protecção: quando menos se esperava, abriu em Lisboa um livraria de viagens, que se torna caso único. A Palavra de Viajante quer ser o ponto de encontro de todos os amantes das viagens e dos livros. E até tem um café com sabores do mundo. Extra: uma lista de dez livros de viagens sugeridos pela livraria.
É um pequeno espaço, entre o acolhedor e íntimo, num cotovelo da alfacinha e legislativa Rua de São Bento. Mas, nos seus cerca de cem metros quadrados, esta novíssima livraria de viagens, inaugurada há semana e meia e com o papel ainda a cheirar a novo, abarca o mundo todo. Por sala e meia, perfilam-se estantes de guias, mapas, literatura de viagens, todo o tipo de roteiros, alguns acessórios para o bom viajante. No conjunto, soma Ana Coelho, uma das sócias — juntamente com a amiga Dulce Gomes, propõem-se “umas centenas de referências”. "Mas o stock vive em contínuo crescimento", assegura.
A Palavra de Viajante (cujo nome nasce de um pilar fundamental da casa: a viagem contada na primeira pessoa) quer ser um portal amigável para todas as odisseias possíveis, as reais e as da imaginação. Além dos clássicos e novos guias, resume Ana Coelho, adopta "um conceito mais abrangente, com literatura de viagem, relatos de jornalistas ou embaixadores que deixaram a sua narração do que viram e viveram". Aos livros, juntam-se as comidas e bebidas no Café do Viajante, uma salinha com direito a janela para minijardim e que propõe uma ementa simples onde se conjuga a literatura com pratos e criações nascidas sob influência dos mais diversos cantos do mundo, nomeadamente dos destinos que estejam em destaque na livraria.
O rumo da palavra
Para muitos, abrir hoje uma livraria, e logo destinada ao nicho de viagens, poderia não ser a primeira ideia de negócio a ocorrer. Até há alguns meses, o Centro Comercial da Portela tinha uma livraria similar, a FXS, que entretanto mudou os seus livros para um espaço perto de Sintra, na empresa Touratech, especializada em equipamentos e acessórios para motociclos. Mas as duas amigas, sem relação profissional com as viagens — Ana trabalhava em produção de espectáculos, Dulce é professora de estatística —, decidiram não desistir deste "sonho muito antigo", resultado “da conjugação de duas paixões, naturalmente pelos livros e pelas viagens" e, "sobretudo, por livros que despertam o interesse por viajar". "Tínhamos agora condições para apostar nesta… às vezes não sei se é loucura", confessa-nos Ana.
Uma "loucura" semelhante ao início de muitas viagens: se não fosse agora, "então quando seria a altura certa?". E foi assim que partiram para esta aventura, não sem pensar "mais que duas vezes… umas três ou quatro…". Na génese do projecto, um grande livro, o Danúbio de Claudio Magris, "o historial da Europa no final do século XIX e pelo século XX aproveitando a 'desculpa' do rio". Depois de percorrerem as páginas do livro, as duas sócias realizaram, de facto, a viagem que, aliás, foram relatando num blogue — e é assim que o Danúbio acaba por tomar forma de Palavra de Viajante e desaguar em São Bento. É "uma forma muito interessante de conhecer os povos e as culturas, viajando com o livro e depois podendo fazer a viagem física", resume Ana: "Para mim, é a melhor forma de viajar". Outra viagem marcaria o nascimento da livraria e deixaria marcas decisivas: a concretização de parte do lendário transiberiano.
In Público
Por Luís J. Santos
É um pequeno espaço, entre o acolhedor e íntimo, num cotovelo da alfacinha e legislativa Rua de São Bento. Mas, nos seus cerca de cem metros quadrados, esta novíssima livraria de viagens, inaugurada há semana e meia e com o papel ainda a cheirar a novo, abarca o mundo todo. Por sala e meia, perfilam-se estantes de guias, mapas, literatura de viagens, todo o tipo de roteiros, alguns acessórios para o bom viajante. No conjunto, soma Ana Coelho, uma das sócias — juntamente com a amiga Dulce Gomes, propõem-se “umas centenas de referências”. "Mas o stock vive em contínuo crescimento", assegura.
A Palavra de Viajante (cujo nome nasce de um pilar fundamental da casa: a viagem contada na primeira pessoa) quer ser um portal amigável para todas as odisseias possíveis, as reais e as da imaginação. Além dos clássicos e novos guias, resume Ana Coelho, adopta "um conceito mais abrangente, com literatura de viagem, relatos de jornalistas ou embaixadores que deixaram a sua narração do que viram e viveram". Aos livros, juntam-se as comidas e bebidas no Café do Viajante, uma salinha com direito a janela para minijardim e que propõe uma ementa simples onde se conjuga a literatura com pratos e criações nascidas sob influência dos mais diversos cantos do mundo, nomeadamente dos destinos que estejam em destaque na livraria.
O rumo da palavra
Para muitos, abrir hoje uma livraria, e logo destinada ao nicho de viagens, poderia não ser a primeira ideia de negócio a ocorrer. Até há alguns meses, o Centro Comercial da Portela tinha uma livraria similar, a FXS, que entretanto mudou os seus livros para um espaço perto de Sintra, na empresa Touratech, especializada em equipamentos e acessórios para motociclos. Mas as duas amigas, sem relação profissional com as viagens — Ana trabalhava em produção de espectáculos, Dulce é professora de estatística —, decidiram não desistir deste "sonho muito antigo", resultado “da conjugação de duas paixões, naturalmente pelos livros e pelas viagens" e, "sobretudo, por livros que despertam o interesse por viajar". "Tínhamos agora condições para apostar nesta… às vezes não sei se é loucura", confessa-nos Ana.
Uma "loucura" semelhante ao início de muitas viagens: se não fosse agora, "então quando seria a altura certa?". E foi assim que partiram para esta aventura, não sem pensar "mais que duas vezes… umas três ou quatro…". Na génese do projecto, um grande livro, o Danúbio de Claudio Magris, "o historial da Europa no final do século XIX e pelo século XX aproveitando a 'desculpa' do rio". Depois de percorrerem as páginas do livro, as duas sócias realizaram, de facto, a viagem que, aliás, foram relatando num blogue — e é assim que o Danúbio acaba por tomar forma de Palavra de Viajante e desaguar em São Bento. É "uma forma muito interessante de conhecer os povos e as culturas, viajando com o livro e depois podendo fazer a viagem física", resume Ana: "Para mim, é a melhor forma de viajar". Outra viagem marcaria o nascimento da livraria e deixaria marcas decisivas: a concretização de parte do lendário transiberiano.
In Público
Por Luís J. Santos
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
I Congresso do Livro discutiu alternativas “para que o livro não morra”
Em Março, no Reino Unido, foi divulgado um estudo que revelava que 10% dos britânicos, com idades entre os 15 e os 54 anos, tinha um iPad, o tablet da Apple, e 30% tinha um e-reader, um leitor de livros electrónicos como o Kindle, Sony ou Kobo. Estes números vão aumentar até ao final do ano, com a compra de presentes de Natal. A revolução digital veio para ficar. E embora a Europa esteja atrasada em relação aos Estados Unidos quando se trata de adoptar o digital no mundo editorial, isso não significa que essa mudança irá passar-nos ao lado.
"A revolução digital está em nosso redor, é um momento transformador, o equivalente ao momento da revolução de Gutenberg", afirmou Fergal Tobin, presidente da Federação Europeia de Editores e um dos convidados do I Congresso do Livro, organizado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e que reuniu nos últimos dias editores, livreiros e agentes literários na Praia da Vitória, ilha da Terceira, Açores.
Há a ideia de que a indústria editorial sobreviveu ao aparecimento de outros media durante o último século — rádio, televisão, Internet — e que irá sobreviver a este também. Desenganem-se. "Este momento é diferente. Vamos sobreviver à chegada do digital, mas ele já está a afectar o nosso ambiente tradicional da indústria editorial e com um efeito muito maior do que aconteceu com o aparecimento dos outros media", disse.
E atreveu-se a fazer um pouco de futurologia, embora na literatura e nas “belles lettres” a mudança para o digital pareça estar a ser menos penosa do que nas áreas mais comerciais. A opinião de Fergal Tobin é que o nicho literário continuará a existir no livro impresso, mas vai ser pequeno e talvez demasiado pequeno para ser comercialmente viável. A não-ficção terá uma mudança significativa do impresso para o digital, nomeadamente nos livros de saúde, jornalismo, auto-ajuda, etc. E os livros de arte ficarão em papel pois, acredita Fergal Tobin, não haverá ecrã de televisão em alta definição que substitua a leitura de um álbum. A conclusão é que a mudança vai ser "decisiva e transformadora" e as ameaças são reais para alguns sectores.
Alterar leis
Uma das conclusões saídas do congresso é a de que "a alteração da legislação é necessária para adequá-la à defesa da saúde do negócio dos direitos dos autores e dos editores", disse ontem o editor João Rodrigues, presidente da comissão organizadora do I Congresso do Livro, na sessão de encerramento.
Na plateia, Isaías Gomes Teixeira, administrador-delegado da Leya, alertou para a necessidade de mudanças na lei e da urgência de se tomarem decisões por causa da concorrência num mundo globalizado. Em Portugal há a lei do preço fixo e ao livro electrónico é aplicado o IVA à taxa máxima de 23%. No Brasil não. E, por isso, até ao final do ano o administrador da Leya terá de decidir se a livraria online do seu grupo — a Leya Mediabooks, que vende e-books de autores portugueses que também estão publicados no Brasil — continuará portuguesa ou passará a ser uma empresa brasileira, já que a Leya opera nos dois países.
A União Europeia, explicou o editor da Principia e da livraria Ferin, Henrique Mota, está a estudar a questão do IVA e, provavelmente, irá impor um princípio de territorialidade: um livro digital vendido no Brasil terá de ter o IVA aplicado no país de onde é enviado. Para aumentar a confusão, se um editor português vender actualmente um e-book integrado num suporte físico, a esse e-book já é aplicado o IVA à taxa reduzida.
Cabos, capas e baterias
Durante as discussões nos dois dias do congresso foi também consensual que é necessária a preservação da rede livreira independente. "Estas livrarias têm de sobreviver com as adequações necessárias à revolução digital", disse outro dos convidados, o presidente da Federação Europeia de Livreiros, John McNamee.
Isabel Coutinho
Público
"A revolução digital está em nosso redor, é um momento transformador, o equivalente ao momento da revolução de Gutenberg", afirmou Fergal Tobin, presidente da Federação Europeia de Editores e um dos convidados do I Congresso do Livro, organizado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e que reuniu nos últimos dias editores, livreiros e agentes literários na Praia da Vitória, ilha da Terceira, Açores.
Há a ideia de que a indústria editorial sobreviveu ao aparecimento de outros media durante o último século — rádio, televisão, Internet — e que irá sobreviver a este também. Desenganem-se. "Este momento é diferente. Vamos sobreviver à chegada do digital, mas ele já está a afectar o nosso ambiente tradicional da indústria editorial e com um efeito muito maior do que aconteceu com o aparecimento dos outros media", disse.
E atreveu-se a fazer um pouco de futurologia, embora na literatura e nas “belles lettres” a mudança para o digital pareça estar a ser menos penosa do que nas áreas mais comerciais. A opinião de Fergal Tobin é que o nicho literário continuará a existir no livro impresso, mas vai ser pequeno e talvez demasiado pequeno para ser comercialmente viável. A não-ficção terá uma mudança significativa do impresso para o digital, nomeadamente nos livros de saúde, jornalismo, auto-ajuda, etc. E os livros de arte ficarão em papel pois, acredita Fergal Tobin, não haverá ecrã de televisão em alta definição que substitua a leitura de um álbum. A conclusão é que a mudança vai ser "decisiva e transformadora" e as ameaças são reais para alguns sectores.
Alterar leis
Uma das conclusões saídas do congresso é a de que "a alteração da legislação é necessária para adequá-la à defesa da saúde do negócio dos direitos dos autores e dos editores", disse ontem o editor João Rodrigues, presidente da comissão organizadora do I Congresso do Livro, na sessão de encerramento.
Na plateia, Isaías Gomes Teixeira, administrador-delegado da Leya, alertou para a necessidade de mudanças na lei e da urgência de se tomarem decisões por causa da concorrência num mundo globalizado. Em Portugal há a lei do preço fixo e ao livro electrónico é aplicado o IVA à taxa máxima de 23%. No Brasil não. E, por isso, até ao final do ano o administrador da Leya terá de decidir se a livraria online do seu grupo — a Leya Mediabooks, que vende e-books de autores portugueses que também estão publicados no Brasil — continuará portuguesa ou passará a ser uma empresa brasileira, já que a Leya opera nos dois países.
A União Europeia, explicou o editor da Principia e da livraria Ferin, Henrique Mota, está a estudar a questão do IVA e, provavelmente, irá impor um princípio de territorialidade: um livro digital vendido no Brasil terá de ter o IVA aplicado no país de onde é enviado. Para aumentar a confusão, se um editor português vender actualmente um e-book integrado num suporte físico, a esse e-book já é aplicado o IVA à taxa reduzida.
Cabos, capas e baterias
Durante as discussões nos dois dias do congresso foi também consensual que é necessária a preservação da rede livreira independente. "Estas livrarias têm de sobreviver com as adequações necessárias à revolução digital", disse outro dos convidados, o presidente da Federação Europeia de Livreiros, John McNamee.
Isabel Coutinho
Público
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
"Este novo livro fecha um ciclo" - José Luís Peixoto lança hoje 'Abraço', que reúne textos da última década. Além dos livros e da intimidade, o autor fala sobre a sua incapacidade de aceitar um cargo político.
Correio da Manhã - Apesar de ‘Abraço' ser formado por crónicas isoladas pode ser lido como um romance, dada a continuidade que passa. Foi fácil a articulação?
José Luís Peixoto - Para mim, o que foi mais difícil e o maior desafio na construção deste livro foi justamente a selecção dos textos e a sua organização. No momento em que me propus a transformar todo o material que tinha - que eram dez anos de publicações em revistas e jornais - não era muito evidente como ia pegar naquilo e dar a forma que eu queria. Encontrar um fio narrativo, uma sequência lógica que permitisse criar um livro e não num simples arquivo.
- Houve então uma intenção de criar uma sequência.
- Sim. E a estrutura do livro é próxima da árvore, no sentido em que tem um tronco com diversas ramificações. Esse tronco, a partir do qual tudo vai derivando, é uma sequência autobiográfica, o que faz com que o livro seja, em certa medida, um livro de memórias. Desde a minha primeira memória, até episódios muito recentes da minha vida. Tudo acaba por assentar em três pilares, que são três idades: os seis, os 14 e os 36 anos. De certa forma quis que isso fosse sugerido por um texto que é o primeiro e que está fora dessa estrutura. É um texto em que falo dos meus filhos. As idades de seis e 14 são as dos meus filhos e 36 a minha própria idade quando terminei o livro.
- Há uma crónica em que se fala do acto de se expor e não se ver problema nisso. Não há, portanto, receio de partilhar a intimidade?
- Não, este livro entra muito profundamente na intimidade. Há textos que estão muito nesse âmbito. Não vejo motivo para as pessoas se surpreenderem com a intimidade. Não se está a revelar nada que não seja da esfera do humano. Chorar, por exemplo, toda a gente chora... As coisas consideradas mais íntimas toda a gente as faz. Daí este título, ‘Abraço', ser tão afectivo.
- E caloroso.
- Sim, porque é humano. É algo que é transmitido de uma pessoa para a outra. E isso é algo de precioso. Parece quase um slogan, mas enquanto estava às voltas com a organização deste livro, pensei no que era mais importante para mim. Por um lado, estava restringido pelo que tinha, por outro o que queria dizer e dar aos outros. A conclusão que cheguei é que queria fazer alguma coisa sobre o que é mais importante para mim. São os meus filhos. Há aquela palavra sobre-utilizada, que talvez o seja devido à sua importância, que é o amor. O primeiro texto do livro, em que o meu filho mais novo me vai perguntando sucessivos ‘porquês?' a partir de uma afirmação simples. A resposta final acaba por ser "Porque o amor, filho." [risos] No fundo é isso: quando penso naquilo que é efectivamente importante para mim, e coloco uma lupa em cima disso, e quando penso no que faz ficar de consciência tranquila de dar aos outros vai sempre dar ao amor.
- O livro assenta muito nos conceitos ‘família', ‘paternidade', ‘amor', ‘morte'...
- Às vezes, para mim, também é importante dizer aos leitores que sou uma pessoa. Os autores muito facilmente podem ser desumanizados, apesar de fazerem algo de tão humano como a escrita. A relação entre o leitor e o autor é bastante distante, porque se processa através das palavras e através de um meio que não privilegia o contacto directo.
- O seu estilo contraria isso.
- Tento aproximar-me e dizer às pessoas que aquilo que faço é o que elas fazem. É o que toda a gente faz. Até a Rainha de Inglaterra [risos].
- Por outro lado, fala-se de Facebook, fala de uma tampa de caneta esquecida num bolso ou de uma rapariga na esplanada. Há aqui um elogio das coisas simples?
- Sim. E do presente e do prosaico. A soma disso acaba por ser a nossa vida. Isso faz-me pensar na importância destes textos para mim.
- E revê-se em todos eles? Até nos mais antigos?
- Neste livro, dos textos que publiquei nas mais diversas publicações, os poucos que não estão neste livro são os que considero que não têm validade. Esta é a escolha daqueles que merecem ser lidos no futuro. Um livro como este corre o risco de ser subvalorizado por não ser um romance nem um texto inédito. Tenho muita pena se isso acontecer e vou fazer de tudo para que tal não aconteça. Sinto que se há algo que a mim me dá uma imagem do que foi o meu trabalho de escrita nos últimos dez anos é este livro. Quais foram os meus interesses, os meus temas... Há inúmeras situações, personagens, lugares dos meus romances que se percebem aqui de onde vêm. Para mim, este livro é tão importante quanto os restantes. Não é um repositório, um caixote, uma gaveta.
- É, portanto, um livro de balanço de uma década?
- Exactamente. Precisava de organizar tudo o que tinha. Não no sentido de organizar os papéis que tinha lá em casa, mas organizar a minha cabeça e para poder ter novas ideias. É muito importante tirarmos do nosso sistema o que temos para termos novas ideias. Precisava de fazer o balanço de todas estas questões para avançar com novas ideias.
- O ‘Abraço' é o fechar de um ciclo?
- Sim, este novo livro fecha um ciclo. Não porque abandone alguns temas que, se calhar, não tenho completamente resolvidos, mas também por fico com uma noção muito mais clara do que me falta dizer.
- Um tema que tem sido muito focado na sua obra e, obviamente, retratado neste livro, são as suas raízes, na Galveias. É um desses temas que nunca ficarão resolvidos?
- No que diz respeito à minha terra e ao Alentejo, ainda só comecei a escrever sobre o tema. Tenho muito para dizer. Há aí uma coisa que me fascina e que faz parte de mim que é a procura de um lugar no Mundo. Falando de tantos temas, este livro fala de viagens, de desenraizamento, de aeroportos, de hotéis. Quanto mais viajo, mais me interrogo sobre o meu lugar e sobre essa ligação quase sagrada que tenho com esse ponto do Mundo onde nasci e cresci e me formei.
- Aos 37 anos, tem mais respostas ou mais questões sobre esse lugar?
- Sinto que tenho mais respostas, do que as que já tive. Tenho mais a dizer, mais palavras dentro de mim. No entanto, isso implica que tenha também mais perguntas. Ao mesmo tempo, sinto que há questões para as quais nunca vou ter respostas e isso não me angustia. Pelo contrário: até aceito como um aspecto positivo, porque sei que ter um ânimo permanente, um horizonte é importante... até aos 150 anos! Não há limite para isso. Esse horizonte, essa capacidade de continuar a ser estimulado por perguntas é um elemento inerente de estar vivo.
- Considera-se um escritor filósofo?
- Não. Sinto que, em certa medida, a filosofia está presente em todas as formas de expressão e reflexão. Seria um pouco forte pensar nisso. Não sendo um filósofo, sinto que há uma filosofia presente naquilo que escrevo. Da mesma maneira que, não sendo músico, existe alguma musicalidade nos meus textos. São elementos inerentes ao discurso.
- O ‘Abraço' é o livro certo, de passagem, após o êxito crítico de ‘Livro'?
- Para mim faz sentido. Mais do que enquanto obra, do ponto de vista pessoal. Não consigo escrever um romance por ano. Neste momento da minha vida, não tenho assunto suficiente para escrever um romance por ano. Tendo publicado um romance no ano passado, dificilmente conseguiria ter um romance publicado neste ano.
- Não gosta de trabalhar à pressa?
- Não consigo. Sinto, de alguma forma, que o ‘Livro' marcou um momento que também foi um degrau acima daquilo que tinha feito antes. E, de certa forma, um balanço. O ‘Abraço' acaba também por ter esse carácter. É importante resolver algumas questões que estão em mim, para depois seguir em frente.
- Apesar disso, a sua carreira literária, nesta última década foi extensa. Além de quatro romances, publicou inúmeras crónicas, peças de teatro e até letras de músicas.
- Este livro acaba por ser também um aspecto fundamental da minha acção. Ao fazê-lo, gosto de pensar que estou a reconhecer a importância a essa produção. Estes textos terão validade, espero eu, dentro de um ano, cinco anos, ou até depois.
- A tecnologia veio corromper a leitura?
- Acredito que a tecnologia não compromete e pode oferecer novas formas de comunicação e novas perspectivas sobre esta área tão antiga que é a escrita. Pessoalmente, tenho interesse em fazer parte dessa procura e não temê-la. A validade de uma forma de expressão é tanto maior quanto mais conseguir resistir às diversas realidades humanas. E a escrita retrata de forma muito presente essas novas formas.
- É poeta e este ano o Nobel reconheceu o sueco Tomas Tranströmer. Foi importante para o género literário esta distinção?
- Confesso que não conhecia a obra desse autor. É importante que a poesia continue a ser considerada dentro dos níveis de maior reconhecimento da literatura. A poesia é um género muitíssimo importante e nós, em Portugal, sabemo-lo muito bem. Apesar disso, e tendo em conta o mercado, a poesia é colocada num segundo plano. Às vezes parece-me que há muito mais gente a escrever poesia do que a ler poesia. O que também me parece uma perversão completa.
- Lida bem com a entrega de prémios?
- Quem ganha prémios gosta sempre de os ganhar. Também me parece que os prémios e as diversas formas de reconhecimento devem ser relativiza-las. Escrever é também uma forma de reflectir sobre nós próprios e sobre o nosso lugar. O olhar que os outros possam ter sobre o nosso trabalho é importante, mas devemos também confiar no nosso próprio olhar. É muito simpático quando os outros nos dizem que gostam, mas não pode ser tudo. Mas é muito bom receber prémios. Normalmente, quem faz um discurso anti-prémios são os que os não recebem.
- José Saramago, de quem era admirador, conseguiu receber um Nobel. É possível a língua portuguesa voltar a ser distinguida? Temos mérito para isso?
- Claro que sim. A língua portuguesa, para já, tem um potencial extraordinário, com várias obras, neste e no outro lado do Atlântico, a comprovarem-no. No entanto, não me parece que seja interessante fazermos depender da agenda do Prémio Nobel o valor que damos à nossa própria literatura. Se derem Prémios Nobel a autores de língua portuguesa, à partida, parece-me muito justo, se não derem não será por isso que os autores têm menos mérito. Hoje em dia, receber um prémio como esse depende de múltiplos factores e não apenas da qualidade literária. Aquilo que um autor se deve preocupar, em primeiro lugar, é com a sua obra e com a qualidade do que produz. Ter também a consciência tranquila em relação à mensagem que envia para o Mundo.
- Tem sido visto como um nome da nova literatura portuguesa, juntamente com outros autores como valter hugo mãe ou Gonçalo M. Tavares. Que opinião tem sobre o seu trabalho?
- Gosto bastante. São autores muito diferentes, mas há outros nomes de que poderíamos falar, porque também apresentam trabalhos bastante pessoais, no sentido em que não se tratam de autores que, necessariamente, formam um grupo estético. Aprecio bastante e leio. Encontro-os em múltiplas ocasiões e temos oportunidade de falar sobre o que mais nos preocupa e o que mais no interessa.
- Não existe rivalidade?
- Não sinto isso, pessoalmente. Na minha opinião, existe efectivamente uma geração porque se trata de um número bastante coeso no que diz respeito à atenção que merece que têm em comum a particularidade histórica de terem crescido depois do 25 de Abril de 1974. As grandes mudanças estéticas ao nível da literatura sempre estiveram ligadas aos seus contextos históricos e a esta geração coube esta característica de termos vivido neste período.
- Não é estranho não haver mulheres mais associadas a essa nova geração?
- Isso é incrível. Existem poucas - não digo que não existam nenhumas - e isso será revelador de alguma coisa que não sei muito bem o que é. Curiosamente na poesia têm surgido mais nomes do que na prosa.
- O IVA vai manter-se nos 6% ao contrário das outras áreas culturais. Se isso não acontecesse era o fim da indústria?
- Para já, é possível que exista aí o facto de termos um secretário de Estado [Francisco José Viegas] que tem uma sensibilidade ligada à literatura, sendo escritor. Sendo editor também tem, possivelmente, consciência do impacto que teria na indústria editorial a subida do IVA. Um impacto do IVA seria tremendo. A área editorial, hoje em dia, já não é um parente pobre. Existem grupos com poder, que movimentam muito dinheiro e que, inclusivamente, têm uma agressividade que não tinham antes. Nessa medida, considero muito importante. Até porque a escrita é uma área da Cultura que é fundamental na construção de uma política cultural. Nem é necessário ir buscar as vitórias internacionais que a literatura portuguesa teve e tem tido, basta ver o próprio papel que ela tem, em Portugal, aos mais diversos níveis. A literatura portuguesa contemporânea está de muitíssima boa saúde. Tudo o que se fizer para manter esse vigor é positivo. Mas sei que é uma área que sofre muito com a crise.
- Tal como Francisco José Viegas, era capaz de aceitar um cargo político?
- Ainda bem que há pessoas que o fazem, mas pessoalmente seria incapaz. Aí está uma coisa que sei que o futuro não me reserva. Aquilo que sempre quis e continuo a querer é ser escritor e escrever livros.
- Mas foi associado ao arranque do movimento dos indignados. Foi apenas uma questão cívica?
- Sim. Não vou prescindir das minhas convicções e da minha acção cívica. Em termos de cargos, não me parece que alguma vez me encontre nessa posição
Por:Rui Pedro Vieira
Correio da Manhã
José Luís Peixoto - Para mim, o que foi mais difícil e o maior desafio na construção deste livro foi justamente a selecção dos textos e a sua organização. No momento em que me propus a transformar todo o material que tinha - que eram dez anos de publicações em revistas e jornais - não era muito evidente como ia pegar naquilo e dar a forma que eu queria. Encontrar um fio narrativo, uma sequência lógica que permitisse criar um livro e não num simples arquivo.
- Houve então uma intenção de criar uma sequência.
- Sim. E a estrutura do livro é próxima da árvore, no sentido em que tem um tronco com diversas ramificações. Esse tronco, a partir do qual tudo vai derivando, é uma sequência autobiográfica, o que faz com que o livro seja, em certa medida, um livro de memórias. Desde a minha primeira memória, até episódios muito recentes da minha vida. Tudo acaba por assentar em três pilares, que são três idades: os seis, os 14 e os 36 anos. De certa forma quis que isso fosse sugerido por um texto que é o primeiro e que está fora dessa estrutura. É um texto em que falo dos meus filhos. As idades de seis e 14 são as dos meus filhos e 36 a minha própria idade quando terminei o livro.
- Há uma crónica em que se fala do acto de se expor e não se ver problema nisso. Não há, portanto, receio de partilhar a intimidade?
- Não, este livro entra muito profundamente na intimidade. Há textos que estão muito nesse âmbito. Não vejo motivo para as pessoas se surpreenderem com a intimidade. Não se está a revelar nada que não seja da esfera do humano. Chorar, por exemplo, toda a gente chora... As coisas consideradas mais íntimas toda a gente as faz. Daí este título, ‘Abraço', ser tão afectivo.
- E caloroso.
- Sim, porque é humano. É algo que é transmitido de uma pessoa para a outra. E isso é algo de precioso. Parece quase um slogan, mas enquanto estava às voltas com a organização deste livro, pensei no que era mais importante para mim. Por um lado, estava restringido pelo que tinha, por outro o que queria dizer e dar aos outros. A conclusão que cheguei é que queria fazer alguma coisa sobre o que é mais importante para mim. São os meus filhos. Há aquela palavra sobre-utilizada, que talvez o seja devido à sua importância, que é o amor. O primeiro texto do livro, em que o meu filho mais novo me vai perguntando sucessivos ‘porquês?' a partir de uma afirmação simples. A resposta final acaba por ser "Porque o amor, filho." [risos] No fundo é isso: quando penso naquilo que é efectivamente importante para mim, e coloco uma lupa em cima disso, e quando penso no que faz ficar de consciência tranquila de dar aos outros vai sempre dar ao amor.
- O livro assenta muito nos conceitos ‘família', ‘paternidade', ‘amor', ‘morte'...
- Às vezes, para mim, também é importante dizer aos leitores que sou uma pessoa. Os autores muito facilmente podem ser desumanizados, apesar de fazerem algo de tão humano como a escrita. A relação entre o leitor e o autor é bastante distante, porque se processa através das palavras e através de um meio que não privilegia o contacto directo.
- O seu estilo contraria isso.
- Tento aproximar-me e dizer às pessoas que aquilo que faço é o que elas fazem. É o que toda a gente faz. Até a Rainha de Inglaterra [risos].
- Por outro lado, fala-se de Facebook, fala de uma tampa de caneta esquecida num bolso ou de uma rapariga na esplanada. Há aqui um elogio das coisas simples?
- Sim. E do presente e do prosaico. A soma disso acaba por ser a nossa vida. Isso faz-me pensar na importância destes textos para mim.
- E revê-se em todos eles? Até nos mais antigos?
- Neste livro, dos textos que publiquei nas mais diversas publicações, os poucos que não estão neste livro são os que considero que não têm validade. Esta é a escolha daqueles que merecem ser lidos no futuro. Um livro como este corre o risco de ser subvalorizado por não ser um romance nem um texto inédito. Tenho muita pena se isso acontecer e vou fazer de tudo para que tal não aconteça. Sinto que se há algo que a mim me dá uma imagem do que foi o meu trabalho de escrita nos últimos dez anos é este livro. Quais foram os meus interesses, os meus temas... Há inúmeras situações, personagens, lugares dos meus romances que se percebem aqui de onde vêm. Para mim, este livro é tão importante quanto os restantes. Não é um repositório, um caixote, uma gaveta.
- É, portanto, um livro de balanço de uma década?
- Exactamente. Precisava de organizar tudo o que tinha. Não no sentido de organizar os papéis que tinha lá em casa, mas organizar a minha cabeça e para poder ter novas ideias. É muito importante tirarmos do nosso sistema o que temos para termos novas ideias. Precisava de fazer o balanço de todas estas questões para avançar com novas ideias.
- O ‘Abraço' é o fechar de um ciclo?
- Sim, este novo livro fecha um ciclo. Não porque abandone alguns temas que, se calhar, não tenho completamente resolvidos, mas também por fico com uma noção muito mais clara do que me falta dizer.
- Um tema que tem sido muito focado na sua obra e, obviamente, retratado neste livro, são as suas raízes, na Galveias. É um desses temas que nunca ficarão resolvidos?
- No que diz respeito à minha terra e ao Alentejo, ainda só comecei a escrever sobre o tema. Tenho muito para dizer. Há aí uma coisa que me fascina e que faz parte de mim que é a procura de um lugar no Mundo. Falando de tantos temas, este livro fala de viagens, de desenraizamento, de aeroportos, de hotéis. Quanto mais viajo, mais me interrogo sobre o meu lugar e sobre essa ligação quase sagrada que tenho com esse ponto do Mundo onde nasci e cresci e me formei.
- Aos 37 anos, tem mais respostas ou mais questões sobre esse lugar?
- Sinto que tenho mais respostas, do que as que já tive. Tenho mais a dizer, mais palavras dentro de mim. No entanto, isso implica que tenha também mais perguntas. Ao mesmo tempo, sinto que há questões para as quais nunca vou ter respostas e isso não me angustia. Pelo contrário: até aceito como um aspecto positivo, porque sei que ter um ânimo permanente, um horizonte é importante... até aos 150 anos! Não há limite para isso. Esse horizonte, essa capacidade de continuar a ser estimulado por perguntas é um elemento inerente de estar vivo.
- Considera-se um escritor filósofo?
- Não. Sinto que, em certa medida, a filosofia está presente em todas as formas de expressão e reflexão. Seria um pouco forte pensar nisso. Não sendo um filósofo, sinto que há uma filosofia presente naquilo que escrevo. Da mesma maneira que, não sendo músico, existe alguma musicalidade nos meus textos. São elementos inerentes ao discurso.
- O ‘Abraço' é o livro certo, de passagem, após o êxito crítico de ‘Livro'?
- Para mim faz sentido. Mais do que enquanto obra, do ponto de vista pessoal. Não consigo escrever um romance por ano. Neste momento da minha vida, não tenho assunto suficiente para escrever um romance por ano. Tendo publicado um romance no ano passado, dificilmente conseguiria ter um romance publicado neste ano.
- Não gosta de trabalhar à pressa?
- Não consigo. Sinto, de alguma forma, que o ‘Livro' marcou um momento que também foi um degrau acima daquilo que tinha feito antes. E, de certa forma, um balanço. O ‘Abraço' acaba também por ter esse carácter. É importante resolver algumas questões que estão em mim, para depois seguir em frente.
- Apesar disso, a sua carreira literária, nesta última década foi extensa. Além de quatro romances, publicou inúmeras crónicas, peças de teatro e até letras de músicas.
- Este livro acaba por ser também um aspecto fundamental da minha acção. Ao fazê-lo, gosto de pensar que estou a reconhecer a importância a essa produção. Estes textos terão validade, espero eu, dentro de um ano, cinco anos, ou até depois.
- A tecnologia veio corromper a leitura?
- Acredito que a tecnologia não compromete e pode oferecer novas formas de comunicação e novas perspectivas sobre esta área tão antiga que é a escrita. Pessoalmente, tenho interesse em fazer parte dessa procura e não temê-la. A validade de uma forma de expressão é tanto maior quanto mais conseguir resistir às diversas realidades humanas. E a escrita retrata de forma muito presente essas novas formas.
- É poeta e este ano o Nobel reconheceu o sueco Tomas Tranströmer. Foi importante para o género literário esta distinção?
- Confesso que não conhecia a obra desse autor. É importante que a poesia continue a ser considerada dentro dos níveis de maior reconhecimento da literatura. A poesia é um género muitíssimo importante e nós, em Portugal, sabemo-lo muito bem. Apesar disso, e tendo em conta o mercado, a poesia é colocada num segundo plano. Às vezes parece-me que há muito mais gente a escrever poesia do que a ler poesia. O que também me parece uma perversão completa.
- Lida bem com a entrega de prémios?
- Quem ganha prémios gosta sempre de os ganhar. Também me parece que os prémios e as diversas formas de reconhecimento devem ser relativiza-las. Escrever é também uma forma de reflectir sobre nós próprios e sobre o nosso lugar. O olhar que os outros possam ter sobre o nosso trabalho é importante, mas devemos também confiar no nosso próprio olhar. É muito simpático quando os outros nos dizem que gostam, mas não pode ser tudo. Mas é muito bom receber prémios. Normalmente, quem faz um discurso anti-prémios são os que os não recebem.
- José Saramago, de quem era admirador, conseguiu receber um Nobel. É possível a língua portuguesa voltar a ser distinguida? Temos mérito para isso?
- Claro que sim. A língua portuguesa, para já, tem um potencial extraordinário, com várias obras, neste e no outro lado do Atlântico, a comprovarem-no. No entanto, não me parece que seja interessante fazermos depender da agenda do Prémio Nobel o valor que damos à nossa própria literatura. Se derem Prémios Nobel a autores de língua portuguesa, à partida, parece-me muito justo, se não derem não será por isso que os autores têm menos mérito. Hoje em dia, receber um prémio como esse depende de múltiplos factores e não apenas da qualidade literária. Aquilo que um autor se deve preocupar, em primeiro lugar, é com a sua obra e com a qualidade do que produz. Ter também a consciência tranquila em relação à mensagem que envia para o Mundo.
- Tem sido visto como um nome da nova literatura portuguesa, juntamente com outros autores como valter hugo mãe ou Gonçalo M. Tavares. Que opinião tem sobre o seu trabalho?
- Gosto bastante. São autores muito diferentes, mas há outros nomes de que poderíamos falar, porque também apresentam trabalhos bastante pessoais, no sentido em que não se tratam de autores que, necessariamente, formam um grupo estético. Aprecio bastante e leio. Encontro-os em múltiplas ocasiões e temos oportunidade de falar sobre o que mais nos preocupa e o que mais no interessa.
- Não existe rivalidade?
- Não sinto isso, pessoalmente. Na minha opinião, existe efectivamente uma geração porque se trata de um número bastante coeso no que diz respeito à atenção que merece que têm em comum a particularidade histórica de terem crescido depois do 25 de Abril de 1974. As grandes mudanças estéticas ao nível da literatura sempre estiveram ligadas aos seus contextos históricos e a esta geração coube esta característica de termos vivido neste período.
- Não é estranho não haver mulheres mais associadas a essa nova geração?
- Isso é incrível. Existem poucas - não digo que não existam nenhumas - e isso será revelador de alguma coisa que não sei muito bem o que é. Curiosamente na poesia têm surgido mais nomes do que na prosa.
- O IVA vai manter-se nos 6% ao contrário das outras áreas culturais. Se isso não acontecesse era o fim da indústria?
- Para já, é possível que exista aí o facto de termos um secretário de Estado [Francisco José Viegas] que tem uma sensibilidade ligada à literatura, sendo escritor. Sendo editor também tem, possivelmente, consciência do impacto que teria na indústria editorial a subida do IVA. Um impacto do IVA seria tremendo. A área editorial, hoje em dia, já não é um parente pobre. Existem grupos com poder, que movimentam muito dinheiro e que, inclusivamente, têm uma agressividade que não tinham antes. Nessa medida, considero muito importante. Até porque a escrita é uma área da Cultura que é fundamental na construção de uma política cultural. Nem é necessário ir buscar as vitórias internacionais que a literatura portuguesa teve e tem tido, basta ver o próprio papel que ela tem, em Portugal, aos mais diversos níveis. A literatura portuguesa contemporânea está de muitíssima boa saúde. Tudo o que se fizer para manter esse vigor é positivo. Mas sei que é uma área que sofre muito com a crise.
- Tal como Francisco José Viegas, era capaz de aceitar um cargo político?
- Ainda bem que há pessoas que o fazem, mas pessoalmente seria incapaz. Aí está uma coisa que sei que o futuro não me reserva. Aquilo que sempre quis e continuo a querer é ser escritor e escrever livros.
- Mas foi associado ao arranque do movimento dos indignados. Foi apenas uma questão cívica?
- Sim. Não vou prescindir das minhas convicções e da minha acção cívica. Em termos de cargos, não me parece que alguma vez me encontre nessa posição
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